quarta-feira, julho 01, 2009

costumávamos ir de mãos dadas até ao quarto número onze. tu debruçavas-te sobre a cama, beijavas-lhe o rosto pálido e conseguias amar-lhe a beleza, tanto como nos seus dias de princesa. o quarto número onze tinha sempre o mesmo cheiro (repugnante até ao dia vinte e sete) e nele proferias sempre a mesma mensagem, sempre à mesma hora, sempre menos verídica. dizias-lhe, e sabias que mentias por te encheres de lágrimas ao abandonar o hospital, que, um dia, quando o quarto número onze não fosse mais que triste recordação, realizariam devaneios e promessas. costumávamos ir de mãos dadas até ao quarto número onze, mas um dia foi outro o caminho, a cama, o cheiro. foi o caminho do afogo para uma cama quase vazia, onde pairava o cheiro a morte que nos fez desejar todos os odores que havíamos repelido até então. agora, meu pequeno, dói-te a eternidade. e nem sonhas que ela é muito superior àquela que conheces…

3 comentários:

filipa disse...

a morte cheira a solidão. e a tristeza.
a cama quase vazia faz-nos dar tanto valor à vida que (ainda) temos...

grande texto.

Maior beijo*

S. disse...

Que bonito...

qel disse...

«quando o quarto número onze não fosse mais que triste recordação, realizariam devaneios e promessas».

há que cumprir com as nossas juras, mesmo que já não as partilhemos da maneira que sonhamos, com as pessoas que idealizamos. *